17.8.08

um fado qualquer

aquela letra sobre loucas em vielas
lembrou-me de uma das minhas músicas favoritas de quinteto tati:

E enfim, estava tudo bem ou coisa assim: o apartamento confortável, bom design, um amor normal e tal. Em vão procurou razões de exaltação e voltou para casa muito, muito devagar, como quem não quer chegar. Pensou nos tempos que em festas e dramas bebeu pelos becos, dançou nas vielas, pôs todos os homens a cantar. Mas hoje à noite, se um fado qualquer soar estafado na sala de estar, talvez se aguente sem nada dizer, enchendo a boca durante o jantar.


visualiza e vês como é triste e normal

deo linda


ainda bem que o tempo passou
e o amor que acabou não saiu
ainda bem que há um fado qualquer
que diz tudo o que vida não diz
ainda bem que lisboa não é a cidade perfeita para nós
ainda bem que há um beco qualquer
que dá eco a quem nunca tem voz

ainda agora vi a louca sozinha a cantar
do alto daquela janela
há noites em que a saudade me deixa a pensar
um dia juntar-me a ela
um dia cantar como ela

ainda bem que eu nunca fui capaz
de encontrar a viela a seguir
ainda bem que o tejo é lilás
e os peixes não páram de rir
ainda bem que o teu corpo não quer
embarcar na tormenta do meu

ainda bem se o destino quiser
esta trágica história
sou eu

Pedro da Silva Martins.

é daquelas coisas estúpidas
que há meses que vejo o desenho da deolinda, ainda antes de se darem cara, e achava piada. contudo - parte estúpida - nunca os ouvi.
ontem recebi um e-mail da rosa com o album e não páro de o ouvir (com o repeat nesta música)
são muito originais e divertidos. mesmo mesmo brilhante ideia, bem conseguida. parece até que é fácil, se calhar é.

14.8.08

lembrei que quero fazer o post do balanço, do meu ano. mas antes tenho de decidir se esse já terminou ou ainda está por terminar. para dizer a verdade, não sei do que estou à espera para decidir.
os meus começam em setembro mas este não é, ou não foi, um ano normal

queria falar de outra coisa

(lembrei-me, já mudávamos, de novo, o aspecto do blog. merecemos, apesar de este ser muito bonito)

pelo quinto ano consecutivo, fui ao andanças
trago sempre de lá coisas, venho sempre feliz e preenchida. do penúltimo, por exemplo, trouxe uma coisa bem grande chamada joão.
deste ano sinto-me de mãos a abanar, não me tocou no fundo.
à excepção da belíssima rosa, da inexplicável ana, da formidável vera, do zé williams e do convívio com os meus dois amores, não presenciei momentos que me fizessem suspirar. (revivi-os, mas isso são contas de outro rosário)

não sei bem se fiquei triste, alguma vez teria de acontecer
e também não encontro boas razões para fundamentar isto
expectativas demasiado altas?

parece que estou a diminuir as pessoas, o andanças valeu-me pelas pessoas

tudo isto para dizer outra coisa
já tinha pensado nisto mas vim de lá com esta ideia mais reforçada

decidi juntar-me a um rancho folclórico. aqui no minho há imensos e tenho a sorte de ter uma tia no grupo folclórico dr. gonçalo sampaio. pelo que me apercebi hoje, o grupo mais antigo de braga é também o grupo mais rigoroso na manutenção da cultura minhota (valha-me deus as socas e o cabelo preso que não há alternativa!)

e eis que descubro hoje também

que este grupo tem um cancioneiro editado e um manual de danças bem à estilo do pedro homem de mello. oh felicidade, é um grupo que se dedica à recolha no terreno - cinge-se ao alto e baixo minho - e passa-a depois para os palcos, e em 1989, para livros. estão aqui à minha frente.

os meus tios do brasil regressam
vou fazer uma coisa
ele é o meu tio preferido
é como a minha mãe, mas homem

é o irmão mais velho
foi para as filas do pão
foi para o brasil fugir da guerra
por lá ficou

e quero que ele me conte, me escreva, as suas memórias
porque é só quando ele cá vem
que descubro que meu bisavô matou homens
que meu avô mantinha a tasca que depois se tornou oficina do meu pai
e que a minha avó vendia cerejas

isto é mais para mim
agora penso que este blog é-me diferente
porque sei-o lido por mais pessoas que não só tu
às vezes é bom
aliás
até ver não tem sido mau.

vou ver os jogos olímpicos
só apanho ginástica masculina, valha-me deus
e joui
parece que havia chinesinhas bem mais novinhas, tens olho

31.7.08

olha nós


num raríssimo momento de contacto físico, de aperalte, de comemoração massificada


esvaziei o cartão da máquina e encontrei algumas fotos interessantes. tipo o meu local de trabalho, o itensivo, do último mês

Valença


fiz biscoitos biscoitos




de chocolate e mirtilo

30.7.08

a joui às vezes escreve assim

sms 1: tava aqui a pensar quando é que a tradição portuguesa me começou a fascinar (sim, também me fascina, embora como mera curiosidade, ou sentimento luso, se lá), e sabes quando foi?

sms2: quando foste para a suiça?

sms3: exactamente. quando percebi que casa era aquilo que cada um trazia consigo da terra e como não era paisagem, nem cheiro, nem a terra em si, era aquilo de que mais fiel tinham. por isso é que os emigrantes são parolos, porque preservam, com as devidas adaptações, a única coisa que os identifica. juntando esse esforço de preservação à vontade de integração, temos uma terra de ninguém, que nem a comunidade de partida, nem de destino compreendem. "cá sou imigrante, lá sou estrangeiro" e tudo acaba por inverter o ditado, porque afinal de contas "the heart is where home is". Uf! :)

29.7.08

leituras de verão #1

uma das coisas que eu mais gosto nas férias de verão, à parte o facto de serem apenas isso - férias - é que posso pegar em livros que não tenho tempo ou disposição para ler durante o resto do ano e lê-los, devagarinho, rápido, ao ritmo que eu quiser, com as interrupções que forem necessárias, com as releituras que bem me apetecer.

se durante o resto do ano tenho uma única posição para ler - deitada de lado na cama, com o braço a apoiar a cabeça, mesmo antes de adormecer - agora posso rebolar na cama, ler na relva de barriga para baixo, salpicar as páginas de areia, sol e sei lá bem mais o quê.

leituras de verão parece estranho, parece que as leituras ficam apenas reservadas para esta altura, como se no resto do ano se andasse num torpor iliterário, sem ideias novas, sem vontades novas. a verdade é que não houve outro verão na vida que eu desejasse tanto como este, precisamente por isso: poder ler aquilo que bem me apetecer. fora o resto, claro, mas isso são outras paragens.

para aquecer:

p.s. - gosto da ideia de abolir as maiúsculas por aqui :)

26.7.08

michel giacometti



enquanto procurava imagens do dussaud, deparei-me com homenagens ao michel giacometti. o nome era-me familiar, especialmente porque já tinha lido o tiago pereira falar sobre o seu trabalho de recolha e espólio blindado nos arquivos públicos-não-muito-públicos da rtp. mas, de resto, uma vez mais temos um francês encantado com portugal, suas culturas e seus hábitos.

(e o museu do trabalho michel giacometti que está em setúbal e eu não sabia? tantas vezes passei por ele e só via museu do trabalho com um manequim dos correios na montra...)
veio para portugal no final dos anos cinquenta, interessando-se pela recolha e gravação de música popular portuguesa. percorreu o país de lés a lés nos vinte anos seguintes, radicando-se nas localidades mais resquecidas e longínquas, recolhendo criteriosamente as expressões musicais genuínas do nosso povo. dizem que é ainda o dele o mais exaustivo levantamento da cultura musical portuguesa, com centenas de instrumentos musicais, fotografias, recolhas de literatura popular e instrumentos de trabalho.

Editou com fernando lopes graça uma antologia da música regional portuguesa (1963, em cinco volumes) - que eu quero muito encontrar - e, em 1981, um cancioneiro popular português. "foi ainda autor de uma série de documentários televisivos, sob o título povo que canta. grande parte do seu espólio musical (também pertencente ao acervo do museu nacional de arqueologia e etnografia, em Lisboa) encontra-se ainda por editar ou organizar." (by wikipedia)








Foi esta antologia o fruto das primeiras pesquisas que Giacometti realizou em Portugal. Pôde contar com a preciosa colaboração de Fernando Lopes Graça, patente na selecção dos trechos musicais e na análise musical dos mesmos. A reedição conservou as palavras explicativas de Giacometti e os importantes textos de Graça. Embora não comporte as fotografias da pesquisa, que muito a enriqueceriam, incluiu as letras dos cantos, sempre importantes para uma melhor compreensão e acompanhamento.
É muito de louvar esta reedição dos célebres «discos de serapilheira», que na altura alcandoraram Michel Giacometti a um lugar destacado na etnomusicologia portuguesa. Foi desde logo o impacto fortíssimo do primeiro disco da série, dedicado a Trás-os-Montes, que trouxe aos intelectuais citadinos tradições e sons longínquos de um campo que inteiramente desconheciam. (attambur.com)

Ui, que agora já descobri mais nomes, e anteriores!

20 - Visitar o museu da imagem em Braga



esta semana, no primeiro dia de férias, fui com a rita e a joui ao museu da imagem. uma casa antiga e remodelada que está a paredes meias com o arco da porta nova - a entrada da cidade que nunca teve portas (conhecem a expressão "deixaste a porta aberta é porque és de braga"? pronto).


as duas irmãs, 1983

nunca lá tinha entrado e não podia deixar escapar esta exposição, crónicas portuguesas de georges dussaud. acompanhada lá fui. apesar de ter trabalhado num museu quando andava no liceu - nas férias do mesmo, claro - ainda sinto aquele pudor ridícilo de entrar sozinha num sítio desconhecido. nunca fui a um museu com os meus pais, não fui habituada nesse sentido, e odeio que a cultura me pareça estar na prateleira de cima, difícil de alcançar. porque normalmente está, mas quando não está, há que agarrá-la e aproveitá-la. e o que custa é começar, porque lá irei muitas mais vezes.

não compreendo como é que é preciso um estrangeiro vir a portugal, apaixonar-se por portugal, querer prolongar portugal e fazer este extraordinário trabalho de recolha e registo de vidas e tradições. quer dizer, compreendo, e até me alegro. é-lhe mais fácil ver coisas que não vemos, reconhecer maravilhas perecíveis que nós não cuidamos, porque não as vemos.

esta foi a minha favorita. quando vamos ao gerês?


agrelos, serra do barroso

as cores a preto e branco, fizeram-me imaginar estes cenários nos 60's e 70's. não, são a partir dos anos 80. não devem ter mudado muito desde o tempo em que os imaginei, e se calhar não devem ter mudado muito até agora. e cheguei à conclusão que - e não há escapatória à minha indiferença quanto ao mar (às vezes desaparece) - que as fotografias à beira mar, de pescadores, de sargaceiras me eram bonitas, muito. mas as fotografias no interior, de hortas, agricultura e crianças livres (livres?) me eram muito mais.

25.7.08

joui
estamos bue bebedas
e é super divertifo!

23.7.08

para as férias

é óbvio que acabei
QUERIDOS LEITORES E LEITORAS
ESTOU DE FÉRIAS!
hoje, defendi a minha tese de mestrado, e correu melhor do que imaginei, e mal terminou fui à biblioteca entregar "Fêtes d'Europe" e "Etnologia Minhota" e trouxe estas pérolas que aqui vos mostro.



agora, sem peso nas consciência, com o futuro em branco (mais ou menos, em cinzento clarinho) posso fazer o que eu quiser.

e o que eu quero é devorar estes livros.

e sei lá que mais

terminou o pior ano de sempre
estou feliz só por isso, ficaria feliz por isso.

20.7.08

pérolas

que encontrei na casa de galegos quando andei lá a vasculhar nos caixotes de fotografias

17.7.08

saber o que se quer

ah, estou animadissima com o meu trabalho

e 5 minutos depois

oh, porque raio é que eu quero fazer um doutoramento?

16.7.08

heatwave

ou eu estou mais uma vez a fazer as coisas à última da hora, como sempre
ou então só se trabalha mesmo quando a brisa fresca de fim de tarde começa a entrar pela janela.

estes dias têm estado bons para fazer aquilo que eu não posso: sentar à sombrinha ou na borda do mar, piscina ou lagoas (nisso, não sou nada, nada esquisita).

isto

já ultrapassa qualquer tipo de procrastinação possível e imaginável.
isto já devia estar arrumado. não consigo concentrar-me, em dois dias consegui construir cinco diapositivos e não vejo forma de voltar a pôr a cabeça neste trabalho quando ela já estava lançada para longe, bem longe.

i want to get on with it and now i'm stuck.
felizmente que numa semana estará tudo acabado.

14.7.08

8. do an Interrail, even if a small one

embora fizesse parte dos meus sonhos há muito, muito tempo, nunca pensei chegar ao final deste ano com ele concretizado. graças à insistência da Rita, concretizou-se. e não me parece que vá ser único.
em primeiro lugar, quero fazer um mais comprido. de um mês. e que sejamos três. embora duas seja um bom número e, neste caso, uma óptima parelha, três é o número perfeito. e o trio em mente ainda mais perfeito seria.a rita já resumiu a viagem em imagens.
budapeste, onde a melancolia é uma forma de ser característica. essencial e peculiar.
bratislava que me encantou, ou melhor, arrebatou para além do compreensível. talvez tenha sido a verdura da eslováquia que me tenha despertado a curiosidade mais do que a cidade, na qual a rita acha (e provavelmente com razão) que eu não conseguiria habitar por mais do que uns meses.
depois, a assombrosa, a majestosa, a imponente viena. que me meteu medo, à primeira, e depois começou, devagarinho a instalar-se nas minhas possibilidades.
depois da imponência, os jardins, muitos jardins. o mercado, que era tão fresquinho e cheio de cor, que era capaz de me mudar para viena só para fazer lá compras.
depois, cracóvia, onde tudo o que podia correr mal aconteceu. o peso de auschwitz, onde se enfrenta tudo o que de pior há na humanidade. e o que há de melhor, por incrível que possa parecer. como se momentos históricos assim pusessem à prova os limites do potencial humano e estivessem agora expostos num museu, para toda a gente ver. e questionar-se do que é que seria capaz.
depois, praga. meu deus. praga. que cidade. parece um cenário de conto de fadas. uma descrição-cliché e só dá vontade de a repetir uma e outra vez. e dá vontade de dar beijinhos (não na rita).

onde a cerveja era just perfect.

vivia lá, se pudesse, com vocês e com o zvo, como no sonho da rita em que fazíamos o pequeno-almoço cheio de pão e frutas e coisas boas e levávamos ao outro lado do pátio e éramos todos felizes e sorridentes e são assim os contos de fadas.

depois, berlim. a inesperada. a movimentada. cheia de influências e histórias e criatividade e movimento e coisas e pessoas bonitas e interessantes. para regalar o olhar e o ouvido. e nunca pensei ouvir a rita dizer "hmmm, aquelas salsichas cheiram bem!"

em todos os sítios que passávamos, construíamos uma nova vida, quinhentas mil novas vontades. quisemos viver em todo o lado, ela mais nuns sítios, eu mais noutros. mas sempre percebendo que alguns dias é muito menos do que o suficiente para perceber, para se entranhar na beleza que todos os sítios têm. devia ser esse, o princípio da vida nómada. sugar tudo o que há de bom de um sítio, e depois passar à frente. assentar apenas o suficiente. nunca se instalar. podia fazer disso um estilo de vida.