26.8.07

family tree

finalmente, decido-me a fazer perguntas. cronologicamente:

o meu bisavô , chamado joão, matou um homem e foi preso. era pedreiro e na altura vivia na ponte do bico, aqui em braga. para atravessar a ponte arriscava-se a ser assaltado diariamente e uma vez iam até atira-lo para o rio - ao irmão do meu avô roubaram-lhe aí o orçamento - salvou-lhe a pele um homem que passava e disse "esse não, que esse aí é conhecido!" , e pronto, lá lhe salvou o pêlo. Dizia eu, arriscava-se a muito só para chegar a casa, e como quase toda a gente, tinha a sua pistolinha na algibeira. Numa noite de copos, um brutamontes, com o dobro da altura do sr. joão - conheces bem a estatura normal dos vieiras - ameaça matar um gato. ao meu bisavô, meteu-se-lhe na cabeça que o homem não podia matar o gato! então depois de pancadaria, com o homem gigante em cima dele, sr. joão saca da pistola e dá-lhe um tiro.
depois vai para casa, enfia-se na cama e adormece.
Na manhã seguinte, com a polícia à porta, diz que não se lembra de nada, a polícia faz questão de lho relembrar, e sr. joão é preso na cadeia do campo da vinha (?).
Morre na cama, tranquilamente, depois de ter molhado doces de romaria numa malga de leite, comprados pela minha avô. come e morre.
"que morte santa" diziam.

Sr. João era casado com a dona Glória, minha bisavó, portantos. Ela vendia fruta, tremoços e azeitonas à face da estrada. às vezes mantinha as frutas debaixo duma cobertura no quintal de casa, e os garotos que iam ao rio, passavam por lá e roubavam-lhe tremoços! ah, a casa ficava mesmo ao lado do rio. aliás, contou-me o meu tio, que debaixo do chão da casa, estavam só cobrinhas d'agua e que uma vez, ele pensava que estava a mamar na mama da minha avó, mas não, tinha um rabinho de cobra na boca!

A minha avozinha, a linda e amorosa SeTresinha, vendia fruta com a mãe,o que implicava acompanha-la desde a ponte do bico até ao mercado, no centro da cidade, com os cestos da fruta. Quando a Dona Glória morreu, Teresinha fica com o lugar no mercado. Aí, como não descontava para a segurança social, decidiu pensar na velhice e fez-se padeira, em que trabalhou 10 anos, o mínimo para obter depois uma reforma. Entre vender o pão, criar seis filhos e cuidar do marido, fazia também a limpeza nas casas de duas senhoras amigas.

O meu avô a Augusto Araújo Fernandes, pura e simplesmente ignorou o Araújo do nome e passou a ser só Augusto Fernandes. Bela peça, descobri que o meu avô era um bon vivant. Quando fazia viagens de comboio ao Porto com a filha, dizia assim ao passar em Famalicão "olha, já tive aqui uma namorada"; passado mais uns minutos repetia a frase. Era muito amigo de estudantes e como sempre foi comerciante, uma vez ofereceu um fato a um estudante que não tinha dinheiro para comprar um para levar a namorada a ver uma exposição colonial no palácio de cristal. foi para o brasil visitar a irmã e por lá ficou uns tempos...depois voltou e foi ele quem movimentou toda a familia...da ponte do bico para o areal. no areal, abre um tasco frente ao então inexistente quartel. a minha avô trata dos fritos antes de ir para a padaria e ele trata do resto. nesse tasco, vive toda a família. nesse tasco, viria depois a abrir o meu avô paterno a sua oficina de metalurgia. pois, que uma vez que a ideia do quartel começa a surgir e a tornar-se realidade, os livro de calotes do sr. augusto começa a aumentar e não tem alternativa a viver ao pé de montariol, onde vive uma bruxa agora. depois foram para a casa que conheci, e de que sinto falta. papel de parede amarelo e azul e linóleo a imitar a madeira no chão.
Augusto faz do rio o que ele quer. excelente nadador, aventureiro, namoradeiro, e excelente guitarrista faz cócegas nos pés da minha avó quando ela era criança. casaram-se tinha ele 50 e ela 26. ela servia-lhe o café na casa do professor da aldeia, que o avô frequentava.
nunca incomodou ninguém. nem deixava que ninguém incomodasse alguém. uma vez cortou as tranças da minha tia com a sua navalha da barba, porque tinha de pedir à vizinha que as fizesse, uma fez que a vó saía demasiado cedo de casa para as fazer. essa minha tia, revoltada, faz o mesmo penteado a uma gémeas que conhecia, dizendo que ficariam muito mais bonitas. estas, com um penteado irremediável vão chorar para a saia da sua mãe, que vem fazer queixa à minha avó, que quer bater na minha tia. "o Se Tresinha, não bata! só não sei o que faça ao cabelo das minhas filhas!..."

2 comentários:

Rita disse...

Parece uma daquelas hist'orias mirabolantes do garcia marquez :)

JoaoG disse...

Nem sei que dizer... Se já gostava de ti, agora ainda mais. Incrivel historia. És bonita a contar historias da tua familia, que orgulho tens!

Beijo-te